segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

** Diário de Bordo - 25/10 Instituto dos Cegos **


25/10 – Instituto Campineiro dos Cegos Trabalhadores

A quarta e última apresentação dessa primeira série de concertos do projeto HORIZONTE-SE já me dava uma sensação de nostalgia antes mesmo de acontecer, e por dois motivos básicos, o primeiro é que me apeguei de tão forma nesse projeto e ele foi tão grande dentro do meu ser que é como se fosse uma despedida e eu nunca entendi muito bem sobre as despedidas, e o segundo motivo é que passei alguns momentos da minha infância visitando esse instituto, um amigo dos meus avós passava grande parte do dia por lá, e com isso fazíamos visitas freqüentes.

Eu tinha flashs na memória muito claros daquele lugar, ao menos da fachada, e isso dava uma impressão de que seria “jogo em casa”, uma paz tremenda me invadiu no momento em que chegamos por lá, dessa vez novamente acompanhado pelos fiéis escudeiros Camila e Orlando.

O instituto fica sediado numa antiga fazenda colonial, fruto de doação da antiga proprietária, numa região quase central de Campinas, e o salão de eventos deveria ser uma sala de jantar, tinha uma mesa grande em uma extremidade da sala cercada por cadeiras de época, e várias outras cadeiras espalhadas por todo o ambiente, onde sentavam as pessoas para os tais eventos e palestras que aconteciam ali.

Armamos nossa parafernália em uma bagunça calculada no canto da grande mesa e ficamos esperando algum monitor ou professor ou funcionário que viesse para trazer as pessoas e posicionar cada qual em uma cadeira, e ai já começaram as surpresas do dia, percebemos que as pessoas vinham chegando sozinhas, outras em grupos, mas nada de funcionários para guiar o caminho ou posicionar, eram totalmente suficientes, e isso na verdade nem deveria ser uma surpresa, foi mais por falta de informação nossa, afinal aquelas pessoas só tinham a deficiência visual, e mostraram nesse primeiro contato o quanto a vida sempre consegue encontrar um caminho, feito flor que nasce no meio do asfalto e nem por isso deixa de nascer ou de ser flor ou de enfrentar o asfalto, enfim. (reparem nas graminhas que brotam entre as pedras da calçada).

Enquanto a sala estava enchendo eu ia fazendo os ajustes finais na parte sonora, preocupado com o volume já que imaginei que a sensibilidade auditiva deles era enorme também, e enquanto dedilhava um acorde qualquer, ouvi uma voz da primeira fileira falando: - Esse piano é de um Yamaha, não é? E foi então que eu conheci essa grande figura chamada Ageu, deveria ter por volta dos 50 anos, era músico também, cego, e tinha até um CD gravado de forma independente dentro do  estilo New Age, cheguei perto dele e ficamos proseando por um bom tempo até a turma toda chegar na sala, falamos sobre influências musicais, sobre timbres e modelos de teclados, sobre o cenário musical da região, ele tinha um conhecimento fantástico, digno de mestre mesmo, e a figura serena dele também me lembrava muito esses filósofos gregos da antiguidade que hoje povoam essas estátuas pelo mundo (só para vocês visualizarem também), se não fosse mestre por ofício certamente era mestre por genética.

Comecei a tocar, e foi algo muito parecido com uma apresentação em teatro, o público perto, participativo cada um na própria introspecção, em vários momentos acompanhavam os beats eletrônicos com palmas, com batidas de pé no chão, o ar de alegria era contagiante, e apesar de ter colocado a caixa de som exatamente no centro da mesa para que a sonoridade fosse ampla pela sala, as cabeças deles apontavam sempre para o canto esquerdo, que era o local onde eu estava, não sei se fazia barulhos que chamassem a atenção, se era o meu bater o pé para marcar o tempo, ou se eram os olhos do coração que me fitavam... linda apresentação, tudo deu certo, tudo funcionou.

No final conversei com todos, troquei contatos e ainda hoje me comunico por email com alguns, poderia parecer outra surpresa isso, mas a vida já tinha me mostrado que sempre encontra um caminho.

E pensando nessa analogia com “as pessoas na sala de jantar” e olhando para a letra de Panis Et Circenses (do Gil e Caetano) percebi que eles falavam exatamente sobre isso:

”Mandei plantar
Folhas de sonho no jardim do solar
As folhas sabem procurar pelo sol
E as raízes procurar, procurar”

É meus amigos, e a vida sempre encontra um caminho, esteja você em grupo, esteja você sozinho!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

** Diário de Bordo - 23/10 Lar dos Velhinhos **


23/10 - Lar dos Velhinhos

Era a terceira apresentação do projeto, e seguindo a idéia de que a nossa surpresa também fosse um aliado resolvemos fazer o reconhecimento do local só no dia da apresentação, uma hora antes, e lá estávamos eu e o fiel escudeiro Orlando Lazzaretti, logo ao entrar no complexo um sentimento enorme de nostalgia me abateu.

Essa apresentação era diferente, era um lugar que falava sobre o tempo, de todo o tempo que já passou, de quanto tempo ainda resta, e por mais que isso tudo seja muito relativo, o fluxo natural das coisas leva sempre para o lado cronológico da realidade, e não falo sobre o tempo daquelas pessoas que estavam lá, mas sobre o nosso tempo, sobre o meu tempo, tudo é apenas uma fagulha de momento.

Minha vontade por diversas vezes era ligar a câmera e despejar tudo isso num depoimento ao vivo, de toda aquela sensação que me rondava, mas tal qual Dorian Gray (do Oscar Wilde) confesso que fiquei com medo de me ver, nunca tinha sentido isso nesses últimos 33 anos, meu peito estava inquieto, minha angústia parecia uma penumbra de buraco negro que vinha me engolindo, não liguei a câmera.

Fomos até o Salão de Eventos montar os equipamentos, era uma espécie de refeitório também, numa ponta do salão ficava o palco e na outra extremidade ficava a mesa com os aparatos alimentícios, e no meio disso duas fileiras de mesas, dessas comuns de refeitório mesmo. O responsável pelo complexo veio nos informar que a quantidade de pessoas seria pequena, visto que alguns deles estavam fazendo exames, outros em atividades diversas, outros no cochilo da tarde, já que a apresentação era logo após o almoço (por volta das 14:00h).

A imagem que eu tinha do “Lar dos Velhinhos” é que seria uma apresentação cheia de figuras maternais, aquela coisa de vó sabe? um show com cheiro de bolinho de chuva... mas não levei em conta que todo mundo envelhece e era esse “todo mundo” que tinha por lá, tinham de fato as figuras com cara de vó simpática, mas também tinham autistas idosos sem ninguém para dar o suporte, tinham os debilitados fisicamente, e os debilitados neurológicamente.

Enquanto montávamos um deles se aproximou e começou uma prosa, deveria ter por volta de 65 anos, e nos disse que estava por lá desde que a mãe dele tinha falecido (esse era um autista)... e lá vinha meu buraco negro devorando tudo que eu tinha no peito...

Fiz a apresentação, com as mãos trêmulas, mas foi tudo como tinha que ser, e mesmo sem saber o que seria tocado eles foram de um respeito fantástico (acho que eram umas 20 pessoas), ouviam, aplaudiam, e sorriam...  e no meu carro-chefe sonoro, Coming Back, achei que iria travar a cabeça... é uma música que fala sobre volta, e o que ficava me martelando naquele momento: - Para onde volta uma árvore que já não tem raízes?... besteiras de um quase poeta, no fim das contas nunca somos volta, somos uma eterna ida (de mão dupla).

Terminada a apresentação, meu fiel escudeiro Orlando trouxe até mim o Seu Ângelo, 91 anos, violeiro e poeta, declamou com alegria nos olhos a primeira poesia de amor que fez nos primórdios da juventude, e fez os meus olhos encherem de emoção, mas ele só queria saber mesmo se para funcionar o amplificador dele era preciso ligar o cabo primeiro no violão ou primeiro na tomada?... horizontou-me.

O fim, não existe, somos eternos e constantes meios, por todos os lados e com todos os anseios e receios.

...continua...