25/10 – Instituto Campineiro dos Cegos Trabalhadores
A quarta e última apresentação dessa primeira série de
concertos do projeto HORIZONTE-SE já me dava uma sensação de nostalgia antes
mesmo de acontecer, e por dois motivos básicos, o primeiro é que me apeguei de
tão forma nesse projeto e ele foi tão grande dentro do meu ser que é como se
fosse uma despedida e eu nunca entendi muito bem sobre as despedidas, e o
segundo motivo é que passei alguns momentos da minha infância visitando esse
instituto, um amigo dos meus avós passava grande parte do dia por lá, e com
isso fazíamos visitas freqüentes.
Eu tinha flashs na memória muito claros daquele lugar, ao
menos da fachada, e isso dava uma impressão de que seria “jogo em casa”, uma
paz tremenda me invadiu no momento em que chegamos por lá, dessa vez novamente
acompanhado pelos fiéis escudeiros Camila e Orlando.
O instituto fica sediado numa antiga fazenda colonial, fruto
de doação da antiga proprietária, numa região quase central de Campinas, e o
salão de eventos deveria ser uma sala de jantar, tinha uma mesa grande em uma
extremidade da sala cercada por cadeiras de época, e várias outras cadeiras
espalhadas por todo o ambiente, onde sentavam as pessoas para os tais eventos e
palestras que aconteciam ali.
Armamos nossa parafernália em uma bagunça calculada no canto
da grande mesa e ficamos esperando algum monitor ou professor ou funcionário
que viesse para trazer as pessoas e posicionar cada qual em uma cadeira, e ai já
começaram as surpresas do dia, percebemos que as pessoas vinham chegando
sozinhas, outras em grupos, mas nada de funcionários para guiar o caminho ou
posicionar, eram totalmente suficientes, e isso na verdade nem deveria ser uma
surpresa, foi mais por falta de informação nossa, afinal aquelas pessoas só
tinham a deficiência visual, e mostraram nesse primeiro contato o quanto a vida
sempre consegue encontrar um caminho, feito flor que nasce no meio do asfalto e
nem por isso deixa de nascer ou de ser flor ou de enfrentar o asfalto, enfim. (reparem
nas graminhas que brotam entre as pedras da calçada).
Enquanto a sala estava enchendo eu ia fazendo os ajustes
finais na parte sonora, preocupado com o volume já que imaginei que a
sensibilidade auditiva deles era enorme também, e enquanto dedilhava um acorde
qualquer, ouvi uma voz da primeira fileira falando: - Esse piano é de um
Yamaha, não é? E foi então que eu conheci essa grande figura chamada Ageu,
deveria ter por volta dos 50 anos, era músico também, cego, e tinha até um CD
gravado de forma independente dentro do estilo New Age, cheguei perto dele e ficamos
proseando por um bom tempo até a turma toda chegar na sala, falamos sobre influências
musicais, sobre timbres e modelos de teclados, sobre o cenário musical da região,
ele tinha um conhecimento fantástico, digno de mestre mesmo, e a figura serena
dele também me lembrava muito esses filósofos gregos da antiguidade que hoje
povoam essas estátuas pelo mundo (só para vocês visualizarem também), se não
fosse mestre por ofício certamente era mestre por genética.
Comecei a tocar, e foi algo muito parecido com uma
apresentação em teatro, o público perto, participativo cada um na própria
introspecção, em vários momentos acompanhavam os beats eletrônicos com palmas,
com batidas de pé no chão, o ar de alegria era contagiante, e apesar de ter
colocado a caixa de som exatamente no centro da mesa para que a sonoridade
fosse ampla pela sala, as cabeças deles apontavam sempre para o canto esquerdo,
que era o local onde eu estava, não sei se fazia barulhos que chamassem a atenção,
se era o meu bater o pé para marcar o tempo, ou se eram os olhos do coração que
me fitavam... linda apresentação, tudo deu certo, tudo funcionou.
No final conversei com todos, troquei contatos e ainda hoje
me comunico por email com alguns, poderia parecer outra surpresa isso, mas a
vida já tinha me mostrado que sempre encontra um caminho.
E pensando nessa analogia com “as pessoas na sala de jantar”
e olhando para a letra de Panis Et Circenses (do Gil e Caetano) percebi que
eles falavam exatamente sobre isso:
”Mandei plantar
Folhas de sonho no jardim do solar
As folhas sabem procurar pelo sol
E as raízes procurar, procurar”
É meus amigos, e a vida sempre encontra um caminho, esteja você em grupo, esteja você sozinho!
”Mandei plantar
Folhas de sonho no jardim do solar
As folhas sabem procurar pelo sol
E as raízes procurar, procurar”
É meus amigos, e a vida sempre encontra um caminho, esteja você em grupo, esteja você sozinho!

