segunda-feira, 26 de novembro de 2012

** Diário de Bordo - 11/10 Adacamp **



11/10 - Adacamp

Voltamos para o segundo dia de apresentação na Adacamp, já que a grade de horário comportava duas turmas, e como era a semana da criança achamos válido fazer novamente lá e participar dessa festa com eles. Cheguei com meus fiéis escudeiros (Camila e Orlando) e com a cabeça mais tranqüila, afinal já conhecia o ambiente, já sabia onde montar, já sabia de onde puxar a tomada, e já imaginava que seria tudo igual ao dia anterior... mas (e sempre tem um mas, não é?) não foi, o lugar era o mesmo mas a turma era outra, completamente diferente, muitas crianças, correndo por todo lado, voando por todo canto, e outros tantos que ficavam num mundo particular, um outro grau da patologia, como se fossem ciscos dentro de uma bolha de sabão.

Montei tudo da mesma forma que no dia anterior, ao lado da mesa do refeitório onde tinham as guloseimas e as bexigas da festa, e assim como no dia passado foram formando os grupos ao redor, muito mais pessoas e um fluxo bem maior de grandes e de pequeninos (muitos mesmo), mas que tinham um respeito e uma educação com aquilo tudo que estava acontecendo que me deixou fascinado.

Lembro de um grupinho sentado no chão, com umas oito crianças, bem na minha frente, e quando eu comecei a tocar virou uma “rave”, eles pulavam, dançavam, corriam por todos os lados, e já me vinha aquela imagem das borboletas no meio do campo florido. Em alguns momentos um dos pequenos se aproximava de mim, ficava parado em frente ao teclado e tentava olhar de baixo para cima para os meus olhos, e toda vez que eu olhava para ele me dava um sentimento de nostalgia, era como se ele tivesse olhos de saudade, de tudo aquilo que não foi, que não vem, que não fui... era um olhar tão profundo, olhos brilhantes da saudade, o olhar de todo o mundo, e então ele ria, de canto de boca, de riso sincero, e me trazia de volta.

No meio de todos, um pequeno com a cara mais traquinas, ligado no 220, corria frenético por todos os cantos possíveis daquele espaço, por diversas vezes parava ao meu lado, esticava o dedo indicador e sutilmente encostava no meu braço enquanto eu tocava, ainda não sei se ele queria saber se eu estava ali ou se queria me mostrar que ele de fato estava ali, e de espectador das borboletas acabei me tornando também parte do campo florido, aos olhos dele, bolha de sabão... estica o dedo, dá um cutucão, cisco caído.

A penúltima música da apresentação era Coming Back, a faixa nove do meu CD Analog Dream e certamente a trilha responsável em grande parte por todo espaço que esse disco conquistou, fiquei impressionado com a forma que eles interagiam com essa música, foi uma comoção coletiva, eram palmas, era um círculo que se fechava ao meu redor, eram danças, eram borboletas ariscas... e logo na Coming Back, que fala sobre “a volta”, que fala sobre tocar novamente o próprio chão!

Era o final da segunda apresentação do HORIZONTE-SE, e lá estávamos nós percebendo que cada vez que você tenta se doar você acaba se recebendo .

...continua...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

** Diário de Bordo - 10/10 Adacamp **



10/10 – Adacamp

Era a primeira apresentação do Projeto HORIZONTE-SE e confesso que estava apreensivo, não sabia como era o espaço onde iria tocar e principalmente não sabia como seria a reação das pessoas que lá estariam, e fiz questão de não saber nada disso antes para justamente ter essa surpresa também, acho que dessa forma seria uma troca mais sincera de todas as emoções, afinal é disso que o projeto fala, da reciprocidade.

O fato de ter junto meus fiéis escudeiros Orlando Lazzaretti Jr. e Camila Mosh, que foram para auxiliar na parte técnica e na captação das imagens, serviu como um “porto seguro”, extremamente fundamental o apoio e o carinho deles nesse momento.

A Adacamp é uma ONG que cuida de autistas, de variadas idades e níveis de patologia, não só da cidade de Campinas mas dos arredores também, fomos muito bem recebidos pelos funcionários e profissionais da organização e encaminhados para o local da apresentação onde aconteceria uma festa comemorativa ao dia das crianças.

A apresentação, com toda poesia que me cabe, foi totalmente singular em vários aspectos, armei a parafernália toda num canto perto de uma tomada (que era tudo que eu precisava para fazer acontecer naquele momento) e foram formando vários grupos ao redor, alguns sentaram no chão perto de mim, outros ficaram na mesa do refeitório mais ao lado, alguns corriam pelo gramado que tinha no espaço da frente e outros corriam no meio de todos os grupinhos ao mesmo tempo, e enquanto eu tocava também ia observando de canto de olho o que estava acontecendo, e aqueles olhos brilhando somados com os sorrisos e com a música que me abstraia desse mundo, criavam imagens na minha cabeça, um cenário muito claro, era como se eu fosse o vento soprando melodias num campo florido, de diversas flores, e muitas borboletas correndo nos ares por todos os lados, de todos os amores.

E no final da apresentação, nessas peculiaridades da nossa vida cotidiana, conheci o jovem Leo (de aproximados 15 anos) que veio me cumprimentar pelo show, entreguei um cd meu de presente e ele me disse que também tinha um cd gravado, perguntou se poderia buscar o violão dele para tocar um pouco comigo e foi ali que eu comecei a perceber que esse projeto tinha muito mais para me oferecer... ele disse que conseguiria me acompanhar, sentou numa cadeira em frente e ficou esperando eu tocar... permaneci um tempo quieto tentando entender o que estava acontecendo ali, e comecei a bater alguns acordes sem me preocupar com campo harmônico ou seqüências qualquer, e para a minha surpresa cada acorde que eu batia no teclado ele dedilhava no violão, nota por nota... Leo tinha ouvido absoluto, exímio instrumentista, e só de descrever esse fato já fico todo arrepiado, devido a sensibilidade que transbordava naquele momento (e nesse...) , sem dúvidas era um gênio ali na minha frente, um anjo, uma massa de energia positiva. Descobri depois que ele também é membro de uma orquestra de violas de Valinhos-SP.

E assim foi o primeiro dia do HORIZONTE-SE, carregamos os equipamentos no carro, mas o coração já não nos cabia, saímos de lá transbordados !

... continua ...