23/10 - Lar dos Velhinhos
Era a terceira apresentação do projeto, e seguindo a idéia
de que a nossa surpresa também fosse um aliado resolvemos fazer o
reconhecimento do local só no dia da apresentação, uma hora antes, e lá estávamos
eu e o fiel escudeiro Orlando Lazzaretti, logo ao entrar no complexo um
sentimento enorme de nostalgia me abateu.
Essa apresentação era diferente, era um lugar que falava
sobre o tempo, de todo o tempo que já passou, de quanto tempo ainda resta, e
por mais que isso tudo seja muito relativo, o fluxo natural das coisas leva
sempre para o lado cronológico da realidade, e não falo sobre o tempo daquelas
pessoas que estavam lá, mas sobre o nosso tempo, sobre o meu tempo, tudo é
apenas uma fagulha de momento.
Minha vontade por diversas vezes era ligar a câmera e
despejar tudo isso num depoimento ao vivo, de toda aquela sensação que me
rondava, mas tal qual Dorian Gray (do Oscar Wilde) confesso que fiquei com medo
de me ver, nunca tinha sentido isso nesses últimos 33 anos, meu peito estava
inquieto, minha angústia parecia uma penumbra de buraco negro que vinha me
engolindo, não liguei a câmera.
Fomos até o Salão de Eventos montar os equipamentos, era uma
espécie de refeitório também, numa ponta do salão ficava o palco e na outra
extremidade ficava a mesa com os aparatos alimentícios, e no meio disso duas
fileiras de mesas, dessas comuns de refeitório mesmo. O responsável pelo
complexo veio nos informar que a quantidade de pessoas seria pequena, visto que
alguns deles estavam fazendo exames, outros em atividades diversas, outros no
cochilo da tarde, já que a apresentação era logo após o almoço (por volta das
14:00h).
A imagem que eu tinha do “Lar dos Velhinhos” é que seria uma
apresentação cheia de figuras maternais, aquela coisa de vó sabe? um show com
cheiro de bolinho de chuva... mas não levei em conta que todo mundo envelhece e
era esse “todo mundo” que tinha por lá, tinham de fato as figuras com cara de
vó simpática, mas também tinham autistas idosos sem ninguém para dar o suporte,
tinham os debilitados fisicamente, e os debilitados neurológicamente.
Enquanto montávamos um deles se aproximou e começou uma prosa, deveria ter por volta de 65 anos, e nos disse que estava por lá desde que a mãe dele tinha falecido (esse era um autista)... e lá vinha meu buraco negro devorando tudo que eu tinha no peito...
Enquanto montávamos um deles se aproximou e começou uma prosa, deveria ter por volta de 65 anos, e nos disse que estava por lá desde que a mãe dele tinha falecido (esse era um autista)... e lá vinha meu buraco negro devorando tudo que eu tinha no peito...
Fiz a apresentação, com as mãos trêmulas, mas foi tudo como
tinha que ser, e mesmo sem saber o que seria tocado eles foram de um respeito
fantástico (acho que eram umas 20 pessoas), ouviam, aplaudiam, e
sorriam... e no meu carro-chefe sonoro,
Coming Back, achei que iria travar a cabeça... é uma música que fala sobre
volta, e o que ficava me martelando naquele momento: - Para onde volta uma
árvore que já não tem raízes?... besteiras de um quase poeta, no fim das contas
nunca somos volta, somos uma eterna ida (de mão dupla).
Terminada a apresentação, meu fiel escudeiro Orlando trouxe
até mim o Seu Ângelo, 91 anos, violeiro e poeta, declamou com alegria nos olhos
a primeira poesia de amor que fez nos primórdios da juventude, e fez os meus
olhos encherem de emoção, mas ele só queria saber mesmo se para funcionar o
amplificador dele era preciso ligar o cabo primeiro no violão ou primeiro na
tomada?... horizontou-me.
O fim, não existe, somos eternos e constantes meios, por
todos os lados e com todos os anseios e receios.
...continua...

Iluminado realmente...
ResponderExcluirColecionando experiências únicas, espalhando sorrisos e esperança, cultivando o amor ao próximo e principalmente, aprendendo muito!
ResponderExcluirValorizo-te amigo, de forma inigualável!
Reverências, poeta!