segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

** Diário de Bordo - 23/10 Lar dos Velhinhos **


23/10 - Lar dos Velhinhos

Era a terceira apresentação do projeto, e seguindo a idéia de que a nossa surpresa também fosse um aliado resolvemos fazer o reconhecimento do local só no dia da apresentação, uma hora antes, e lá estávamos eu e o fiel escudeiro Orlando Lazzaretti, logo ao entrar no complexo um sentimento enorme de nostalgia me abateu.

Essa apresentação era diferente, era um lugar que falava sobre o tempo, de todo o tempo que já passou, de quanto tempo ainda resta, e por mais que isso tudo seja muito relativo, o fluxo natural das coisas leva sempre para o lado cronológico da realidade, e não falo sobre o tempo daquelas pessoas que estavam lá, mas sobre o nosso tempo, sobre o meu tempo, tudo é apenas uma fagulha de momento.

Minha vontade por diversas vezes era ligar a câmera e despejar tudo isso num depoimento ao vivo, de toda aquela sensação que me rondava, mas tal qual Dorian Gray (do Oscar Wilde) confesso que fiquei com medo de me ver, nunca tinha sentido isso nesses últimos 33 anos, meu peito estava inquieto, minha angústia parecia uma penumbra de buraco negro que vinha me engolindo, não liguei a câmera.

Fomos até o Salão de Eventos montar os equipamentos, era uma espécie de refeitório também, numa ponta do salão ficava o palco e na outra extremidade ficava a mesa com os aparatos alimentícios, e no meio disso duas fileiras de mesas, dessas comuns de refeitório mesmo. O responsável pelo complexo veio nos informar que a quantidade de pessoas seria pequena, visto que alguns deles estavam fazendo exames, outros em atividades diversas, outros no cochilo da tarde, já que a apresentação era logo após o almoço (por volta das 14:00h).

A imagem que eu tinha do “Lar dos Velhinhos” é que seria uma apresentação cheia de figuras maternais, aquela coisa de vó sabe? um show com cheiro de bolinho de chuva... mas não levei em conta que todo mundo envelhece e era esse “todo mundo” que tinha por lá, tinham de fato as figuras com cara de vó simpática, mas também tinham autistas idosos sem ninguém para dar o suporte, tinham os debilitados fisicamente, e os debilitados neurológicamente.

Enquanto montávamos um deles se aproximou e começou uma prosa, deveria ter por volta de 65 anos, e nos disse que estava por lá desde que a mãe dele tinha falecido (esse era um autista)... e lá vinha meu buraco negro devorando tudo que eu tinha no peito...

Fiz a apresentação, com as mãos trêmulas, mas foi tudo como tinha que ser, e mesmo sem saber o que seria tocado eles foram de um respeito fantástico (acho que eram umas 20 pessoas), ouviam, aplaudiam, e sorriam...  e no meu carro-chefe sonoro, Coming Back, achei que iria travar a cabeça... é uma música que fala sobre volta, e o que ficava me martelando naquele momento: - Para onde volta uma árvore que já não tem raízes?... besteiras de um quase poeta, no fim das contas nunca somos volta, somos uma eterna ida (de mão dupla).

Terminada a apresentação, meu fiel escudeiro Orlando trouxe até mim o Seu Ângelo, 91 anos, violeiro e poeta, declamou com alegria nos olhos a primeira poesia de amor que fez nos primórdios da juventude, e fez os meus olhos encherem de emoção, mas ele só queria saber mesmo se para funcionar o amplificador dele era preciso ligar o cabo primeiro no violão ou primeiro na tomada?... horizontou-me.

O fim, não existe, somos eternos e constantes meios, por todos os lados e com todos os anseios e receios.

...continua...

2 comentários:

  1. Colecionando experiências únicas, espalhando sorrisos e esperança, cultivando o amor ao próximo e principalmente, aprendendo muito!
    Valorizo-te amigo, de forma inigualável!

    Reverências, poeta!

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